Bem-vindos ao Gibi!

Pois é, a memória de colunas, matérias, entrevistas e notas antigas, produzidas entre 2000 e 2005, está finalmente na internet. Aos poucos, as imagens referentes a cada coluna serão adicionadas, bem como novas imagens. Por enquanto, muitos textos para vocês se divertirem. Ainda falta uma boa parte para ser adicionada, inclusive textos ainda inéditos, produzidos no período. Leiam, comentem e aproveitem. Quem sabe eu não me animo com tudo isso e retomo a coluna em versão online?

É isso!

Delfin, 7 de janeiro de 2010

Antes das campinas da liberdade

A tira de quadrinhos é um produto que nasceu e se desenvolveu nos Estados Unidos. Ela possui vários formatos: o dominical (como as que saem na última página do Criança), o vertical e o horizontal são os mais difundidos. Destes, o último é o mais popular: três ou quatro quadrinhos preto-e-brancos em seqüência, servindo para contar uma piada, uma pequena história ou um capítulo de uma longa narrativa.

Frank Cho, um universitário que gostava de desenhar, resolveu que usaria este formato popular para mostrar seu trabalho para o mundo. Assim, criou as tiras que deram fama a este carinha de Maryland: Universidade².

A tira conta a história de Ralph, Dean, Frank e seus amigos, que são animais que serviriam de cobaia para algum experimento maluco, mas que se extraviaram e foram parar numa universidade! E o pior: a escola os aceitou como alunos, graças a uma lei no mínimo esquisita, que diz que os animais têm os mesmos direitos dos outros estudantes.

E aí, é claro, começa a confusão. Pois os outros calouros (que é o nome que se dá aos alunos que acabaram de entrar na faculdade) são tão esquisitos que acabam tratando os bichinhos como caras iguais a eles. Depois de um tempo, ninguém mais tem a noção de quem é um bichinho e de quem é um cara normal no dormitório só para homens em que eles moram.

Mas tá na cara que falta um romance na vida de alguém. E Frank, o pato metido a intelectual, é o premiado, pois acaba se apaixonando por uma garota simplesmente divina, chamada Brandy. E foi a partir do início do romance, com todos os ingredientes da adolescência, que a tira conquistou o público da cidade de Cho. E, quando ele saiu da faculdade, a tira tinha sido muito premiada e alguns contratos para publicação em jornal.

Mas Cho decidiu que os personagens também deveriam sair da universidade. E acabaram indo morar numa reserva ecológica que deu um novo e definitivo nome para a tira: Liberty Meadows (em português poderia ser traduzido por Campinas da Liberdade), que hoje é publicada em vários jornais e também tem uma revista regular, só de tirinhas.

E agora você pode conhecer o traço limpo e lindo de Cho, que é elogiado desde Bill Watterson (criador do Calvin) até Mort Walker (criador do Recruta Zero). A VitaminaBD lançou o primeiro álbum de Frank Cho, Universidade²: Os Anos Loucos. E você pode finalmente descobrir, muito mais cedo que os americanos, se Brandy vai ou não vai se casar com o pato. Você casaria?

De olho: BATTLE CHASERS — GUERREIROS INDOMÁVEIS

É incrível como alguns nomes dos quadrinhos são elevados à condição de gênios por alguns motivos estranhos. Um dos casos que eu menos entendo é o de Joe Madureira, criador do gibi de hoje, Battle Chasers.

Madureira é um desenhista muito bom, isso não há como negar. Mas daí a elevar este gibi a uma obra-prima, há um grande exagero. BC é mais um dos quadrinhos na linha de fantasia medieval que surgiram nos Estados Unidos nos anos 90. O diferencial era justamente o autor.

A história inicial não tem lá suas novidades: Gully, uma garota irascível e inteligente, acaba herdando as poderosas Manoplas de Aramus, que são cobiçadas por forças além da imaginação humana. Outros aparecem para, com o tempo, ajudá-la a descobrir respostas para perguntas ainda não formuladas.

Uma história bacaninha, bem sessão-da-tarde. Mas nada mais além disso. Ainda assim, vale a pipoca e o cobertor nestes dias de frio.

 

Battle Chasers — De Joe Madureira e Munier Sharrieff • Mythos • R$ 5,90

A vida boa de Gon

Ele vive pensando em nada além de sua vida boa: comer, dormir e se divertir. O nome dele é Gon e é um dinossauro invocado e folgado pra dedéu. Com ele não tem conversa. E isso é em todos os sentidos possíveis.

Isto tudo é porque, como você deve imaginar, Gon vive numa época em que não existiam os humanos e, portanto, não existia também a linguagem. E os bichos, como numa torre de babel animal, tinham que dar um jeito de se comunicar uns com os outros. Sem usar uma palavra sequer.

Este é um dos motivos pelos quais a série de mangás Gon é um sucesso de crítica em todos os países em que foi lançada. O jeito de contar histórias de seu autor, Masashi Tanaka, foge do jeito tradicional das narrativas japonesas, inovando os mangás narrativos.

Apesar dos pontos de ligação entre Gon e outro dinossaurinho com histórias mudas (o Horácio de Mauricio de Sousa), as semelhanças não são muito fortes. Enquanto Horácio tem no modo filosófico de ver o mundo a grande força de suas aventuras – que podem acontecer sem que ele mova um músculo sequer na história toda –, com Gon existe um ritmo frenético de ações que são levadas, com todos os personagens, pelo instinto natural de cada ser presente. E, enquanto a criação de Maurício é dócil e serena, Gon é atrevido, abusado e tem a perfeita noção de que é mais forte do que a maioria dos animais dos céus, da terra e do mar.

Porque, sim, as aventuras de Gon podem ocorrer em qualquer lugar. E, à medida que se lê cada aventura, rapidamente devorada, Tanaka está, na verdade, levando cada leitor por uma viagem para regiões diferentes do planeta. Gon já viveu aventuras no deserto australiano, na Antártida, nas estepes canadenses e, claro, em pleno Rio Amazonas.

Já foram lançados no Brasil três volumes da série: Gon Come e Dorme, Gon, Tubarões e Carrapatos e a mais recente, Gon Desce o Rio. Certamente, mais volumes serão trazidos pela Conrad, pois este é um quadrinho surpreendente, que já papou prêmios como o Eisner, nos EUA, e o Osamu Tezuka, a mais honrada glória para um quadrinho no Japão. E Gon já faz a sua trilha de devastação (e sucesso) também pelo País.

De olho: NOVOS TITÃS

Eles já tiveram a sua fase gloriosa nos quadrinhos. Foi quando os roteiros estavam a cargo de Marv Wolfman e os desenhos com George Pérez, na mesma época em que os dois profissionais foram responsáveis pela história que mudou a história dos quadrinhos de heróis: a mega-saga Crise nas Infinitas Terras. Inclusive o quase-vilão da maxissérie, o Monitor, já aparecia nas páginas de ouro das aventuras dos Novos Titãs.

Entre esta fase, do fim dos anos 1980, e a atual, muitos roteiristas e desenhistas destruíram o supergrupo de heróis adolescentes, que pareciam condenados ao triste destino de se tornarem apenas um grupinho de apoio para histórias de heróis melhores. Uma tragédia, se pensarmos que eles eram considerados os X-Men da DC Comics.

Mas Geoff Johns, um dos roteiristas mais badalados da atualidade no mundo dos heróis, e o desenhista Mike McKone foram reunidos para dar nova vida ao grupo, agora formado por pupilos dos fundadores originais dos Titãs e alguns dos membros antigos da época de outro do time de jovens combatentes do crime. Para isso, Johns está fuçando no passado dos caras para achar as pontas soltas dos outros roteiristas e, é claro, criando tramas mirabolantes para resolvê-las.

Novos Titãs, lançada recentemente pela Panini, ainda traz histórias dos Renegados (grupo que reúne alguns dos Titãs originais, agora adultos) e também das vingadoras de Gotham: Canário Negro, Caçadora e Oráculo (as mesmas personagens que atuavam naquele bom seriado que o SBT passava aos sábados, mas que tinha o nome bizarro de Mulher-Gato, eca!).

Um belo gibi. Você vai se amarrar!

Novos Titãs — Vários • Panini • R$ 6,50

O grande encontro

Foi na década de 1980. Parece que um monte de coisas que foram boas para os quadrinhos recentes aconteceram nessa época, mas a verdade é que nem todas rolaram como tinham que rolar. A maior decepção dos fãs dessa época, certamente, foi nunca poderem ter apreciado a edição de 48 páginas que vinha sendo preparada pelo escritor Gerry Conway e pelo desenhista George Pérez: Liga da Justiça x Vingadores, que promoveria o encontro das duas maiores equipes das duas gigantes editoriais da América.

O fato é que as divergências entre a Marvel e a DC, tão comuns naquela época, fizeram o projeto parar completamente. Pérez, que já tinha desenhado 21 páginas para o especial, ficou de tal maneira irritado que resolveu sair da Marvel e ficou apenas para a DC. Lá, como todos nós sabemos, ele e Marv Wolfman renovavam os Novos Titãs e, a partir daí, deram início à Crise nas Infinitas Terras. Mas essa história você já conhece.

O que você não sabe é que, por causa de Crise, o material que já havia sido preparado por Pérez não poderia mais ser aproveitado. Tudo porque os mitos da DC tinham tomado um rumo totalmente diferente. O desenhista, no entanto, nunca desistiu da idéia de levar avante esta história nunca contada. Mas não havia mais a parceria com Conway. Por algum tempo, o sonho foi levado junto com Wolfman, mas a grande verdade é que a DC, por muitos anos, estaria recontando as principais histórias de seu universo de personagens, recriando e reformulando a ponto de se matarem dois heróis importantes da Liga nesse meio tempo.

Enquanto isso, na Marvel, que corria atrás da corajosa decisão da DC, começou a chamada fase dos desenhistas, na qual o roteiro era um mero detalhe sem importância. O exemplo mais memorável foram as mais macarrônicas histórias do universo dos X-Men já escritas, destacando os desenhos de gente como Jim Lee e Whilce Portacio. Isso, aliado ao fracasso retumbante do chamado Novo Universo, fez com que a Marvel começasse a repensar os motivos que fizeram com que ela interrompesse as negociações com a DC em 1983.

Foi quando surgiu o projeto Amálgama. Esse é bem recente, você deve se lembrar. Mas eu reavivarei a memória dos esquecidos: as duas editoras resolveram fazer algo memorável e registraram um personagem em comum, chamado Acesso. Ele vivia nos dois universos ao mesmo tempo e seria o elo de ligação da minissérie DC x Marvel / Marvel x DC. Nos Estados Unidos, em determinado ponto da série, as duas editoras suspenderam suas publicações por um determinado tempo e lançaram, cada uma, seis edições ‘amalgamadas’ (ou seja, misturadas), na qual os personagens das duas editoras se misturaram. Houve três dessas séries e, numa delas, houve um breve encontro entre a Liga e os Vingadores.

Foi o que bastou para que Pérez reavivasse de vez o projeto, que ainda demorou alguns anos, mas, finalmente, está nas bancas de todo o país, pela Panini. O encontro, escrito por Kurt Busiek e dividido em quatro edições, envolve destruição de universos, intrigas cósmicas, viagens no tempo e, é claro, boas porradas entre as equipes. Tudo para a nossa total diversão. Após mais de vinte anos de espera, é claro que merecemos isso.

De olho: BATMAN: BATGIRL

Quem acompanha os quadrinhos do Batman sabe muito bem que a primeira Batgirl foi Bárbara Gordon. Hoje, ela possui outro codinome (Oráculo) e é o cérebro da Liga da Justiça, coordenando todas as informações mundiais de sua enorme teia de computadores. Tudo isso andando numa cadeira de rodas.

Todos lembram da estúpida fatalidade da qual Bárbara foi vítima: levou, há alguns anos, um tiro na coluna vertebral, dado sem dó nem piedade pelo Coringa. Esta história, um clássico do Batman, foi contada por Alan Moore em A Piada Mortal (se não leram ainda, corram atrás!).

Mas a verdade é que a heroína, superando todas as dificuldades que poderiam decorrer desta deficiência física, mostrou ao mundo que ela poderia ser ainda mais útil do que quando saía na porrada com os vilões de sempre. E já salvou a vida até do Super-Homem!

Porém, quando havia começado sua carreira como Batgirl, ela jamais poderia imaginar o futuro que estava destinado a ela. Mesmo quando, logo após sua primeira missão, ela encontra o vilão risonho e louco que irá mudar, um dia, a sua vida.

Batman: Batgirl, da Mythos, chega muito atrasado ao Brasil (sete anos, pra ser preciso), mas em tempo de se unir às histórias que contam as origens da heroína, publicadas pela Panini. E assim, mais uma vez, as duas editoras caminham de mãos dadas com a cronologia da DC.

Bom pra você, leitor.

Batman: Batgirl — Por Kelly Puckett, Matt Haley e Karl Kesel • Capa de Brian Stelfreeze • Mythos • R$ 4,50